Uma campanha viral liderada pelo Conselho Norueguês do Consumidor (NCC) está a destacar uma tendência perturbadora no mundo digital: o declínio sistemático da qualidade nas principais redes sociais e plataformas online. Este fenómeno, apelidado de “enshitificação”, descreve como os serviços antes valorizados pela experiência do utilizador são deliberadamente degradados para maximizar os lucros, deixando os consumidores presos em ecossistemas cada vez mais frustrantes. A questão suscitou protestos globais, com mais de 70 grupos de defesa a exigirem ação por parte de políticos de 14 países.
Compreendendo a Enshitificação
O termo “enshitificação” foi cunhado em 2023 pelo jornalista Cory Doctorow para descrever um ciclo previsível: as plataformas primeiro atraem utilizadores com serviços de qualidade, depois exploram esses utilizadores para beneficiar clientes empresariais e, finalmente, extraem o máximo lucro mesmo às custas de tanto utilizadores como empresas.
Na prática, isso significa estratégias agressivas de monetização: mais anúncios, recursos de acesso pago que antes eram gratuitos e uma pressão incansável por assinaturas. Finn Lützow-Holm Myrstad, diretor de política digital do NCC, explica que isto não é acidental, mas uma “escolha deliberada” de empresas que apostam na inércia do utilizador. Os usuários permanecem presos porque não têm alternativas viáveis.
Não existe uma métrica única para definir quando um serviço se torna “entusiasmado”, tornando-o uma experiência subjetiva. No entanto, plataformas como o Facebook são frequentemente citadas como exemplos, dando agora prioridade ao conteúdo promovido em detrimento da ligação genuína – uma consequência direta da tomada de decisões orientada para o lucro.
Por que os produtos digitais são vulneráveis
Os produtos digitais são exclusivamente suscetíveis à ensitificação porque podem ser modificados à vontade, ao contrário dos bens físicos. Isto permite que as plataformas introduzam práticas anticonsumidor com facilidade. O problema piora à medida que a concorrência diminui; fusões e aquisições concentram o poder de mercado, reduzindo a pressão para inovar ou priorizar a experiência do usuário.
A aquisição do Instagram pelo Facebook em 2012 serve como um exemplo importante: se esta fusão tivesse sido bloqueada, a concorrência poderia ter permanecido mais forte, evitando a degradação desenfreada que vemos hoje. O “efeito de rede” agrava ainda mais o problema – os utilizadores ficam relutantes em sair se os seus amigos, criadores ou serviços essenciais permanecerem noutros locais.
O papel da regulamentação
Apesar da consciência da enhitificação, a ação regulatória tem sido lenta e ineficaz. A Lei dos Mercados Digitais (DMA) e a Lei dos Serviços Digitais (DSA) da Europa oferecem soluções potenciais. O DMA exige interoperabilidade, forçando gigantes da tecnologia como Apple e Google a abrirem os seus sistemas aos concorrentes. A DSA exige que as plataformas partilhem dados, avaliem o impacto social e cooperem com os reguladores.
No entanto, a aplicação continua fraca e as multas são muitas vezes insuficientes para dissuadir comportamentos anticoncorrenciais. Myrstad pede penalidades mais rigorosas e defende legislação como a próxima Lei de Justiça Digital (DFA), que poderia abordar o design enganoso e os mecanismos viciantes.
O caminho a seguir
Romper o ciclo de enhitificação requer uma mudança fundamental nos incentivos. As plataformas precisam de priorizar novamente os utilizadores, o que poderá ser impulsionado pelo surgimento de alternativas viáveis. Contudo, é pouco provável que as forças de mercado por si só consigam atingir este objectivo; os governos devem intervir.
A situação atual é insustentável. Os utilizadores estão cada vez mais conscientes do problema e a dinâmica política está a aumentar. O desafio agora é saber se os reguladores agirão de forma decisiva para proteger os consumidores e restaurar um mundo digital melhor.





















